Caetano Veloso em Cruz das Almas Teatro Laranjeira

Caitano Veloso

O Cantor e Compositor Caetano Veloso se apresnta dia 12 de setembro no teatro laranjeiras em Cruz das Almas.

As garras de Caetano
Caetano Veloso reúne artigos sobre música, cinema, teatro, literatura e Brasil em seu novo livro, ‘O mundo não é chato’,

Texto: Álvaro Costa e Silva e Rodrigo de Almeida – Jornal do Brasil

Caetano Veloso fará show em Cruz das Almas
Show dia 12 de setembro -Teatro Laranjeira

Caetano Veloso reúne artigos sobre música, cinema, teatro, literatura e Brasil em seu novo livro, ‘O mundo não é chato’, diz que é uma caricatura de intelectual, ataca a imprensa, como de hábito, e admite que quer Lula fora do governo desde antes de sua posse.O Caetano Veloso escritor – que está lançando O mundo não é chato, coletânea de textos que a Companhia das Letras manda hoje para as livrarias – é o polêmico falante de sempre. Com garras de tigresa mais que afiadas, orgulha-se de poder dizer e escrever o que pensa sem dar satisfação a ninguém. “Sou uma espécie de caricatura de intelectual”, diz o cantor e compositor baiano de 63 anos.

No livro organizado pelo poeta Eucanaã Ferraz, trata do Brasil, de música e de discos, de cinema, teatro, literatura, e de sua vida fora do país, entre outros temas. Na entrevista abaixo, Caetano vai além: fala do presidente Lula, de Carmen Miranda, do escritor cubano Cabrera Infante, do seu filme “injustiçado” O cinema falado, filmado em 1986 e lançado em 2004. Além de tudo, bate duro na imprensa e, em especial, na chamada patota do Pasquim, jornal no qual ele escreveu inúmeros artigos que estão no novo livro.Chama a atenção o tema “Brasil” aparecer em primeiro lugar na organização do livro. Revela a maneira como você se destaca, ou procura se destacar, na vida pública. Há reflexões densas sobre o país, não só pelas referências de autores, mas pela tentativa de elaboração teórica.

É uma posição deliberada?- Considero essas manifestações mais teóricas – que foram descritas por você de uma maneira um tanto quanto hiperbólicas (ri) – como uma espécie de efeito colateral da minha profissão artística, que, por sua vez, é uma profissão da área do entretenimento.

O que você disse talvez esteja certo, mas também faço uma autocaracterização num dos artigos. Refiro-me ao fato de que sou uma espécie de caricatura de intelectual. Eu digo que nunca houve no Brasil alguém tão popular com tanta pinta de intelectual. Isso foi o que sempre definiu minha posição na vida pública. Um trabalho sério, de alguém que se preparou para fazer ensaios sobre a realidade brasileira, sobre as nossas possibilidades históricas, não é uma coisa totalmente ao meu alcance.Mas há um texto originado de uma conferência no MAM (Museu de Arte Moderna), que é uma tentativa clara de elaboração teórica sobre o país.- Escrevi aquilo para nunca ser lido, mas para falar na hora uma série de coisas que, ao serem ouvidas, pudessem ficar na cabeça das pessoas. Sou um artista popular.

Entendo que, de fato, há também um gosto intelectual desde garoto. Meus artigos com 18, 20 anos, são muito reflexivos, apresentam certa densidade e uma ambição natural de querer pensar, embora sem me preparar e ter muitos instrumentos à mão. Sou temerário quanto a me dispor a elaborar pensamentos sem estar tão bem municiado, embora leia, mas muito desorganizadamente, ao sabor do acaso.Há uma crença subjetiva no Brasil, na elaboração teórica. Refere-se a um pessimismo profundo, mas seus textos são otimistas.- Essa crença não é necessariamente otimista. Além disso, não há uma constância em minha crença no Brasil. Mas há uma considerável resistência dessa vontade. Outro ponto é que, quando digo “eu quero”, não é tão pessoal, embora eu também queira.

É como se fosse um convite aos outros brasileiros para saberem que temos uma série de elementos para apresentar ao mundo, uma hipótese social original na prática. Não é uma questão de otimismo, mas de reconhecimento e de constatação da nossa oportunidade. Somos um país de dimensões continentais, no Hemisfério Sul, na América, no Terceiro Mundo, altamente miscigenado e que fala português. São muitas características que formam uma obrigação de originalidade que temos de exercer. A minha proposição, o “eu quero”, é que façamos dessa originalidade um gesto de sujeito e não apenas exibição de objeto.O risco é cair na desesperança, não? Vivemos sempre sob a premissa de sermos “o país do futuro”, que nunca se concretiza.- O livro do Stefan Zweig (Brasil, país do futuro, de 1941) é um desses momentos em que o mundo diz, com clareza, que percebe a originalidade do Brasil. Engraçado falarmos sobre isso.

Anteontem, vi aquele filme, Copacabana, com a Carmen Miranda e o Groucho Marx. Fiquei de madrugada vendo e muitas coisas vieram à cabeça.

Tem uma hora em que um americano babaca canta, rimando bolero com Rio de Janeiro. É muito engraçado, mas provoca na gente um misto de vergonha e orgulho de que falo num artigo do livro. Me lembra o Cabrera Infante (escritor cubano, morto este ano). Em Três tristes tigres, ele fala de uma coisa que, para os cubanos, era um sonho da coisa maravilhosa, uma noite no Cassino da Urca com a Carmen Miranda se apresentando. E, no entanto, tanto o Brasil quanto Cuba chegaram a ter vergonha da Carmen Miranda. E com razão, embora todos possamos nos orgulhar dela.Você nunca pensou em fazer algo em prosa parecido com o que o Cabrera Infante fez?- A vontade que eu tive foi fazer o filme inspirado naquela estrutura de pessoas falando. Cada capítulo é uma pessoa falando um negócio longo. Há sessões de psicanálise, uns literatos com uma falação meio retórica, umas menininhas embaixo do caminhão falando sacanagens, cada um tem um jeito de falar, e ele parodia.

O que é parodiado no filme O cinema falado é, sobretudo, um filme chamado O desafio (de 1965), de Paulo César Saraceni. É um filme interessantíssimo e esquecido. Mas é muito ridículo porque as pessoas falam coisas teóricas. Terra em transe também é assim. É como se fosse O desafio salvo pela genialidade do Glauber. Minha idéia em O cinema falado era fazer um filme como o Cabrera Infante, pegando essa coisa bem ridícula do Desafio.E foi aí que o filme chocou.- Foi. Mas o pessoal do cinema não desgostou muito do filme. Por uma razão muito simples. Os críticos gostam e conhecem cinema.E onde houve a resistência?- Por exemplo, na Folha de S. Paulo, o crítico gostou do filme. Mas o editor-chefe não gostou e não o deixou escrever. E escreveu uma crítica horrorosa. Ele e algumas pessoas que faziam filme atacaram. Arthur Omar, que fazia uns filmes experimentais, gritou, xingou, fez o diabo durante a projeção. E umas três mulheres foram convidadas pela Folha para falar mal de mim. Ninguém se dispôs, mas essas três mulheres se dispuseram. Acho que era porque eram mulheres (ri).Como assim?- Um dia te explico (ri). As três miseráveis aceitaram falar mal do filme, confessando, vejam só, que não tinham visto o filme e nem queriam ver. E eles deram primeira página. Um horror. Tipo “cada macaco no seu galho”, “Caetano é um urubu das vanguardas”. Mas o que posso fazer? São mulheres, coitadas (ri). Só estou fazendo um número engraçado, porque sou feminista desde criança (ri).E o que as mulheres dizem quando você faz essa “homenagem”? Algumas costumam cair na brincadeira e reagem?- Essas são as melhores (ri).Você falou em jornalistas. Como você avalia a imprensa? A crítica cultural é falha? Há muita mediocridade?- Acho que melhorou um pouco.

A primeira página dos segundos cadernos não estão mais tão iguais quanto estavam. Não que tenha melhorado tanto, mas mudou um pouquinho. Tudo muito resumido e igual. Falta um pouco de densidade. E é um pouquinho como orientação ao consumidor. Vale a pena você gastar seu dinheiro e comprar esse disco. Muito superficial.Há no livro artigos publicados no Pasquim, que o criticou muito.- Achei que houve uma coisa superficial no fato de terem mantido uma imagem de aprovação a qualquer coisa que tivéssemos feito no exílio, e tão logo voltamos eles relaxaram e passaram a nos criticar.

Tanto é que depois o Jaguar foi a minha casa na Bahia, onde eu morava com Dedé, e me pediu desculpas. Disse que tudo aquilo tinha sido coisa do Millôr. O fato é que o Millôr, depois de ter saído do Pasquim, escreveu um negócio desrespeitoso ao meu nome e ao da Dedé.

E o Paulo Francis fez uma ironia com um episódio ocorrido na prisão. Ele me pediu notícia do Ênio Silveira (editor da Civilização Brasileira). Eu respondi brevemente, com uma ênclise no texto.

Quando voltei de Londres, o Tarso de Castro, que era o único no Pasquim que fechou conosco, propôs que todos escrevessem saudando a minha volta. O Francis escreveu uma brincadeira pelo fato de eu ter usado a ênclise.A ênclise foi mal empregada?- Que nada, tá maluco? (ri). O problema era a própria ênclise. Coisa de linguagem coloquial, esse negócio de ”jornalistice”. Pena que o Francis morreu antes de Verdade tropical (primeiro livro de Caetano, de 1997), pois ali tem muita ênclise, muita mesóclise.

Passado muito tempo, quando eu entrevistei Mick Jagger, ele deu um coice em mim. Um típico coice de jornalista. Eu então meti o pé também.Há má-fé no jornalismo?- Essa mistura de má-fé com burrice é o maior problema do jornalismo. O sujeito pode ali agredir, fazer mal, destruir relações. O Paulo Francis demonstrou esse tipo de covardia quando esperou o Glauber morrer para começar a campanha contra o Cinema Novo.

Eu falei que ele era uma bicha travada. Francis respondeu que eu devia ser uma pessoa desesperada porque usava o próprio sexo como xingamento, querendo dizer que usei a palavra bicha como xingamento. E que eu, sendo bicha e chamando-o de bicha, só podia ser uma pessoa desesperada. Depois respondi de novo e disse que o xingamento não estava na ”bicha”, mas em ”travada” (ri). Coisa típica da geração dele.Como você analisa o tratamento da imprensa à atual crise política?- Acho que a crise é real e grande. E é natural que se passe por ela. Não pode haver desgraça e a imprensa fingir que não faz parte dessa desgraça. E ela finge. Põe uma voz de vestal acusadora contra os políticos. Mas os órgãos de imprensa não podem ser insuspeitos. Têm seus interesses, suas ligações com governos e grupos econômicos. Vou dizer: sou muito descrente. Não estou decepcionado.Mas você votou no Lula.- Votei no primeiro turno em Lula. Votei no Lula na última hora porque o Ciro pirou do meio para o fim da campanha e praticamente pediu para eu não votar nele. Eu votaria no Serra no segundo turno, mas estava fora do país. Mas o Brasil precisava eleger o Lula, precisava botar isso pra fora.

Se não fosse a esquerda no poder dessa vez, o Brasil ficaria ingovernável. A esquerda criaria problema, diria que seria uma política econômica entreguista, de direita. O que é impossível, já que a política econômica do Lula não poderia ser mais enquadrada ao Consenso de Washington. Não me arrependo de ter votado no Lula. Não tinha esperança e não fiquei decepcionado. Só acho que não precisava ter tanta incompetência e achar que tem o direito de abusar da corrupção.Agora você quer que ele saia?- Agora, não. Sempre quis. Antes mesmo de ele ser empossado.

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