20 Anos do Arraiá do Seu Gesteira

20 Anos do Arraiá do Seu Gesteira

[1]Rafael Caldas Barros Peixoto

Conceição do Almeida localiza-se no Recôncavo Baiano, nas adjacências das cidades de Sapeaçu, Dom Macedo Costa, Santo Antonio de Jesus, Castro Alves, Cruz das Almas e São Felipe, região denominada Recôncavo Sul. Com aproximadamente 19.000 habitantes, possui área de 291,1 km² e está a 159 km de Salvador.[2]Reconhecida na região pelo valor econômico da produção agrícola fumageira das décadas passadas, o Almeida, como é conhecida, desfruta também do seu reconhecimento cultural, haja vista as tradicionais festas populares religiosas como o Terno de Reis, o samba de Roda, a novena de Nossa Senhora da Conceição e Coração de Jesus.
Entretanto, a temática discutida será sobre os 20 anos do Arraiá do Seu Gesteira, hoje o Arraia ou Forró Municipá, como queiram. Assim, para tal objetivo utilizamos informações orais (depoimentos) dos organizadores – participantes como é o caso do senhor José Carlos Ribeiro

Peixoto (Zé Carlos) e sua esposa Maria da Conceição Caldas Barros Peixoto (Conce), e outros moradores participantes do festejo, além de fotografias como fontes para tal dissertação.

O Surgimento:

O São João de Conceição do Almeida representa a verdadeira simbologia do culto ao santo (São João) manifestado pelos portugueses e complementado pelos indígenas e negros no período colonial. O sagrado e o profano são manifestados na maior parte dos festejos religiosos e, em Conceição do Almeida não foi diferente. Segundo Edilece Couto, na

Puxada do Mastro, “as festas religiosas se complementavam entre o sagrado e o lúdico, ambos conseqüência do encontro cultural dos portugueses com índios e negros”. [3]

Na cidade referida, e numa visão macroscópica, no Nordeste, esse valor simbólico entre sagrado e lúdico é manifestado principalmente nas comemorações dos santos juninos (Santo Antonio, São João e São Pedro), especialmente São João. As visitas de porta em porta com a tradicional frase “São João passou por aí?” seguida da manifestação cultural da Guerra de Espadas por algumas ruas, configurava a comemoração do festejo junino no Almeida. Dentro desse contexto, apresenta-se como destaque, a comemoração à São João na rua José Leandro

Gesteira, situada entre a Praça Honôrina Galvão e a Praça da Bandeira.[4]
Desenvolvido pelos moradores da rua, em especial, José Carlos Ribeiro Peixoto (Zé Carlos) e Maria da Conceição Caldas Barros Peixoto (Conce) organizadores, e seguido pelo apoio inestimável dos moradores em destaque, os casais Stela e Luís Maia (in memória), Pedrito (in memória) e Belita, Nezinho (in memória) e Dagui, Benedito (in memória) e Irene, Ana Lidia e Roberto, Sandra e Junior Pituba, Iaiá e Fernandinho, Lia e Binuca, Gaucha e Fernando, Benedito do “Rádio” e familiares, e as senhoras Margarida, Márcia, Chica e Bia, podemos considerar tal iniciativa como fundamental no processo de organização da atual festa do Arraiá ou Forró Municipá.

As organizações da festa eram desenvolvidas na casa do casal Zé Carlos e Conce, onde as pautas dos encontros discutiam os acordos firmados de doações e apoios. A Peixoto & Filhos doavam as camisas e as bandeirolas e os moradores as bebidas (licores), a dever dos homens, e comida típica (milho, amendoim, pamonha, bolos, salgados, etc.) no compromisso das mulheres. Eram realizadas, também, rifas de queijos doado pela empresas de telefonia ITENE, na pessoa de Mauricio Coni. As rendas adquiridas completavam os gastos com a festa. Abaixo podemos observar o ambiente da festa, mas no caso especifico, já ao entardecer do dia 24 de Junho com a queima das espadas.[5]

Ilustração SEQ Ilustração \* ARABIC 1 As duas fotos representam o arrastão dos espadeiros na rua José Leandro Gesteira no dia 24 de Junho pela tarde, sendo que o “ Arraiá do seu Gesteira” acontecia no dia 23 a noite .

Essas iguarias eram distribuídas da seguinte forma: as comidas típicas ficavam exposta para qualquer pessoa ( morador ou conhecido) em uma das partes físicas da casa do casal Luís Maia e Stela ( ambos in memória) e as bebidas no “ Boteco do Seu Gesteira”, uma antiga Venda na atual casa da senhora Graciete.[6]

O primeiro ano foi realizado com a participação de caixas de sons das “radiolas” dos moradores da rua. Vários moradores sintonizavam-as nas mesmas redes sonoras, tocando variadas músicas juninas. Os forrós “comiam no centro” atraindo pessoas de outras ruas.[7] Era algo contagioso, pois a cidade se configurava somente pelo “São João de porta em porta” e pela “ Guerra de espadas”, a não ser as festas que estavam surgindo na época como o Forró do Flamengo e o Forró do Chapéu, ambas tornando-as tradicionais em nossa cidade.
Os anos seguintes, a comissão organizadora composta pelos moradores da rua tentaram contratar sons mecânicos, principalmente o carro de som do empresário Ari Andrade e de Edvaldo, para o aperfeiçoamento dos festejos. Entretanto, tal objetivo não foi angariado, pois, o som não compareceu à festa. Mas, o “Arraiá de seu Gesteira” não se abateu a tal adversidade, e as festas seguiram com as caixas de sons e, com a participação especial dos músicos Bendito (in memória) e Flávio com os Banjos[8] e Dinha Coni com o acordeom. O ultimo ano, houve a participação da Rede Aliança, na pessoa de Pantera, através das caixas de sons fixas nos postes da rua, que foi peça importante na manutenção da festa, reforçando o espaço em alegria e diversão.
A comemoração do São João em Conceição do Almeida configurava-se, portanto, pela visita de porta em porta, algo pouco expressivo nos nossos dias, das “Guerras de Espadas” e do “Arraiá do seu Gesteira”, contagiando tanto os moradores da rua como de outras zonas da cidade.

Do “Arraiá do seu Gesteira” ao Arraiá/Forro Municipá

Com a inauguração do Centro de Abastecimento Jonga (atual cobertura do Mercado Municipal) e com o avanço, em âmbito geral, da indústria cultural musical, tornar o “Arraiá do seu Gesteira” em festa municipal foi uma questão de tempo. O primeiro passo importante foi através do senhor José Carlos Peixoto (Zé Carlos) que, num contato com um dos filhos da gestora local Lúcia Coni, alertou para a criação de uma festa de grande porte, ou seja, que arcasse com mais investimentos e promovessem a festa tanto na cidade como na região. A sugestão foi aceita e a banda contratada foi o forrozeiro Arnaldo Farias, hoje conhecido na cidade. Tal festejo agora se configrou coletivo-geral, onde multidões de almeidenses dançavam o tradicional arrasta-pé com sanfona, triangulo e zabumba.
A festa foi sendo desenvolvida posteriormente onde recebeu o nome de “Arraiá Municipá” e em alguns momentos, Forro Municipá.[9] Mas, o importante é que foi fielmente desenvolvida, tornando-se meio de atrativo turístico cultural e fonte de renda direta e indireta para a cidade e servindo de exemplo para outras cidades vizinhas que não tinham.

***

Assim, diante do exposto, devemos estar atento que, longe de interesses políticos existente em nossa cidade, é importante deixar explícito que a festa que se encontra hoje em Conceição do Almeida (Arraiá Municipá) teve influencia imprescindível dos moradores e organizadores do “Arraiá do seu Gesteira”. Esses foram os pioneiros do festejo, as verdadeiras “Força Motriz” da atual festa na cidade. A participação da prefeitura foi essencial, pois arcou com um projeto amplo, coletivo e dinamizador na cidade.
E hoje temos a festa do Arraiá Municipá do seu Gesteira[10], atraindo vários almeidenses, sem contar os turistas que buscam a alegria e o prazer de conhecer essa cidade maravilhosa que é Conceição do Almeida; seguida da tradicional “Queima das Espadas” e do contexto representativo do São João, através das fogueiras, queima de fogos, comidas típicas, etc, onde Antonio Viana deixa claro no fragmento abaixo:

(…) a tradição que trouxe até nós as inconfundíveis festas juninas guardou com carinho os seus aspectos regionais (…). Aí estão os mesmos fogos, jogados pelos nossos avós, aí permaneceram os mesmos brinquedos, as mesmas guloseimas e os mesmos augúrios que herdamos dos descobridores[11]

[12]

Referências Bibliográficas

COUTO, Edilece Souza, A Puxada do Mastro

REZENDE, Joelito de Oliveira, Recôncavo Baiano: Berço da Universidade Federal Segunda da Bahia – Passado, Presente e Futuro;

VIANA, Antonio, Casos e Coisas da Bahia, Fundação Cultural do Estado da Bahia, 1984,

Fontes:

Depoimentos Orais:

José Carlos Ribeiro Peixoto

Maria da Conceição Caldas Barros Peixoto

Fotografias:

Encontra-se no acervo particular do senhor José Carlos Ribeiro Peixoto, morador na cidade de Conceição do Almeida

[1] Graduando em História pela Universidade Estadual de Feira de Santana – UEFS- Bahia
[2] REZENDE, Joelito de Oliveira, Recôncavo Baiano: Berço da Universidade Federal Segunda da Bahia – Passado, Presente e Futuro; p.25-27.
[3] COUTO, Edilece Souza, A Puxada do Mastro: Transformações históricas da festa de São Sebastião em Olivença ( Ilhéus-Ba), 2001.
[4] Informações de José Carlos Peixoto, empresário e um dos organizadores da festa na rua José Leandro Gesteira.
[5] Sobre a Queima das Espadas em Conceição do Almeida ver Rafael Caldas Barros Peixoto “Guerreiros Imortais: 24 de Junho – Uma Guerra de Espadas em Conceição do Almeida”
[6] Informações da senhora Conce, historiadora e professora da Rede Pública do Estado
[7] Informações da moradora Margarida, técnica em enfrmagem, participante ativa da festa.
[8] Banjo é um instrumento musical da família do cavaquinho tocado muito em ritmos do samba. Mas utilizados em outros ritmos musicais, como no caso do forro do seu Gesteita.
[9] Por questões políticas, as vezes a festa recebiam o nome de Arraiá Municipá e em outros momentos Forro Minicipá. Tal situação estavam atrelado aos gestores da época.
[10] Utilizamos esse nome como sensatez da importância dos moradores no surgimento do festejo, haja vista que o nome atual é Arraiá Municipá.
[11] VIANA, Antonio, Casos e Coisas da Bahia, Fundação Cultural do Estado da Bahia, 1984, p 75.

[12] As fotos acima comprovam o surgimento do “Arraiá do seu Gesteira” no ano de 1989, camisetas doadas pela Loja Peixoto & Filhos LMTD. Tais fontes encontram-se no acervo particular do senhor José Carlos Ribeiro Peixoto.

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